Hoje eu acordei com essa historinha na cabeça. Tentando entender minimamente como é essa tal “noite escura da alma”, o famoso despertar. Então, me veio O Despertar do Burro, que vou contar pra vocês agora.
Mas quem é o Burro?
Burro, desde que se entendia por “gente” carregava pesados fardos pra lá e pra cá. Não é que eles foram ficando mais pesados com o passar da vida, não. Eles sempre foram muito pesados desde o início e foram só aumentando à medida em que Burro vivia, andava por aí e conhecia pessoas.
Os fardos eram tão pesados que feriam e doíam todo o corpo do Burro, mas ele acreditava que era normal, já que eles sempre estiveram ali. Acabou se adaptando a tanta dor e desconforto.
Por onde Burro passava ele conhecia muita gente nova e sempre alguém pedia pra que ele carregasse mais algum fardo. E de sacola aqui, saco ali, ele aceitava gentilmente. Se sentia extremamente feliz por poder ajudar as pessoas. Ele realmente se sentia realizado. Era sua missão de vida!
A queda do Burro
Certa vez em sua jornada, Burro conheceu uma pessoa nova, diferente de todas as outras. Ele viu que essa pessoa tinha muitos fardos para carregar e mais uma vez ofereceu ajuda. Burro sabia que eram muitos, mas não sabia que eram tão pesados, porém aceitou assim mesmo. Afinal, era pra isso que ele existia.
Durante uma caminhada pela vida, Burro já com o lombo lotado de fardos e com os fardos ainda mais pesados daquela nova amizade, ele não aguentou, se desequilibrou e caiu. Saiu rolando barranco abaixo com os fardos se espalhando pra todo lado, o machucando ainda mais. Seu corpo foi se dilacerando nas pedras do barranco ao mesmo tempo que o peso dos fardos provocavam cortes profundos.
Burro não conseguia se segurar em lugar nenhum. Conforme ia caindo ele estendia a pata pra ver se alguém conseguia segura-lo, mas ninguém percebia que ele estava caindo. Entrou em desespero, até que desistiu de se salvar e deixou o corpo se esvair.
Queda estabilizada
Quando finalmente Burro parou, ele ficou incrédulo. Tudo doía ainda mais. Dores que ele jamais imaginara que existia. Ele sangrava, parecia que partes do seu corpo faltavam pedaços. Burro chorou, como nunca havia chorado.
Burro, ainda tonto e todo moído pela queda olhou para trás, para o barranco de onde caíra e viu que não havia a menor condição de voltar. Ele não tinha forças pra isso. Percebeu que estava sozinho. Mas virão me procurar, ele pensou, afinal tenho muitos amigos.
O tempo foi passando e Burro finalmente começou a ouvir as vozes de seus amigos gritando lá de cima do enorme barranco, chamando por ele. Ele ficou muito feliz e chegou mais perto para ouvir quando chegaria o socorro. Ainda ferido, Burro só ouvia: “Burro, tenho mais um fardo, pode levar pra mim?” Ei, Burro! Preciso de você aqui, consegui mais uma sacola e não tenho como carregar.” “Burro, me ajuda aqui!”. “Nossa, Burro. Não seja egoísta, preciso de você.” “Burro, qual é seu problema comigo, o que eu te fiz?” “Burro não é possível que você não tem um tempo pra me responder.”
Burro ficou perplexo, mais triste ainda, mas teve tempo para refletir.
A cura das feridas
Burro, ouvindo todos aqueles gritos vindos de trás, lá do alto do morro, viu que não tinha nem forças para responder. Sentia tanta dor, que só queria ficar quietinho para que as feridas se curassem. Ele se calou.
Burro entendeu que realmente não tinha como voltar do jeito que estava e conforme ia curando suas feridas abertas ele teve tempo de refletir. Pensou que finalmente estava sem os fardos, isso nunca lhe acontecera antes. Ficou confuso, quando teve uma difícil percepção: Nenhum fardo era realmente dele! Ele nunca teve um fardo pra chamar de seu. Todos eram de outras pessoas que encontrou pelo caminho da vida.
Ele ficou confuso, a mente acelerada foi criando pensamentos como:
Mas eu era feliz.
Sentia dor, mas era feliz.
Agora estou sozinho e com dor.
Porque Deus me deixou cair do barranco?
Porque ninguém veio me ajudar?
Eu não era querido por ninguém? Mas eu tenho família.
E agora? E agora? O que eu faço?
Pra onde eu vou agora?
O que eu tenho que fazer agora?
O que Deus quer de mim?
Eram muitas questões que não deixavam que Burro descansasse. Até que ele pensou e soltou: Vou me curar, depois vejo o que faço!
Um novo caminhar
Burro segue se curando, no vazio existencial. Ele está preso entre o topo do morro atrás dele e o novo um novo caminho a sua frente. Ele está assustado com o novo, mas tem certeza absoluta que naquele lugar antigo ele não cabe mais. Tem se sentido cada vez melhor sem os fardos dos outros. Sente falta dos risos, só disso. Mas acredita que consegue viver sem eles e até encontrar novos risos.
Burro ainda está na fase de olhar pta trás e fazer uma retrospectiva do que foi aquela vida inteira de fardos e anestesia. O que foi aquilo? Ele está chamando de escola! Se formou e agora precisa a exercer a profissão de “livre“para descobrir quem ele realmente é.
Ele não sabe o que quer, não sabe dizer do que gosta, não sabe onde vai chegar, não sabe como caminhar sozinho, tomando as próprias decisões. Ainda tem medo de encontrar pessoas que lhe ofereçam fardos e ele acabe aceitando.
Tem medo, mas também tem muita esperança de que o novo caminho vai ser algo extraordinário!


Me identifiquei com o Burro. Estou preocupada e feliz por saber que não estou sozinha. Obrigada, Maura.